Celebridades

Sikêra Júnior, o apresentador dos Bolsonaros

No fim de janeiro, o apresentador de televisão José Siqueira Barros Júnior mal escondia o nervosismo antes da estreia em rede nacional, aos 52 anos, após mais de 30 atuando em emissoras locais do Norte e Nordeste. No ar desde junho de 2019, seu programa Alerta Amazonas, da TV A Crítica, passaria a ser transmitido de Manaus para todo o país pela RedeTV!.

Sikêra Júnior, o apresentador dos Bolsonaros 20/04/2020

“O pessoal me disse que eu estava mudando a história da TV brasileira, porque geralmente tudo é gerado em São Paulo ou no Rio”, lembrou. “Minha ficha só caiu dias depois. Comecei a tomar Rivotril. Coisa de velho.” A claque de Sikêra Júnior, como o apresentador pernambucano é conhecido, tinha apoiadores inclusive na família presidencial. “É hoje!”, escreveu o deputado federal Eduardo Bolsonaro no último dia 28, horas antes da estreia. “Arrebenta!!!”, emendou o senador Flávio Bolsonaro, marcando o perfil de Sikêra Júnior nas redes sociais.

O mais novo expoente, e um dos mais estridentes, da longa tradição de programas que exploram a tragédia e a miséria humanas, desta vez com um toque de humor, Sikêra Júnior se define como um “Chacrinha do policialesco”. “Gangue, porrada, tiro, assalto a banco, não é isso que o povo quer ver mais. Tem de deixar o programa mais engraçado. O cara quando chega em casa às 6 horas da tarde quer relaxar, dar risada”, disse, ao explicar o tom da atração. Mesmo assim, seu programa não chegou a tirar a RedeTV! do 5º lugar do ranking de audiência na faixa das 18 às 20 horas. A novidade, contudo, repercutiu nas redes sociais, onde ele soma 4,7 milhões de seguidores entre Twitter, Instagram e Facebook.

No YouTube, em que são raros os canais próprios de apresentadores policiais, Sikêra Júnior arrebanha 1,8 milhão de seguidores. Durante a estreia nacional, a hashtag #AlertaAmazonas chegou ao topo dos assuntos mais comentados das redes. “É muita emoção para esse bando de gente feia”, vibrou Sikêra Júnior, ao vivo. Em seguida, convocou a equipe do programa para dançar enquanto cantarolava: “Uma bicuda na cara do cão, ele é maconheiro, ele é ladrão”. Pouco antes, em um intervalo de um minuto, havia puxado uma salva de palmas para o ferimento de um assaltante em uma troca de tiros com um policial e, em seguida, exibido para as câmeras um de seus assistentes com o cabelo pintado de rosa.

No dia 8 deste mês, foi a vez de o presidente Jair Bolsonaro compartilhar um trecho do programa, no qual Sikêra Júnior opinava que “a família faltou pouco para ser destruída nesse país, mas estamos reagindo”, e debochava de lemas adotados pela oposição a Bolsonaro nas eleições de 2018, como “Ele não” e “Ninguém solta a mão de ninguém”. No mesmo dia, Eduardo Bolsonaro reforçou sua opinião de que o apresentador é um perfeito exemplar do conservadorismo: “Você sabe o que é ser conservador? Não precisa estudar, ler livros e fazer cursos. Se você concorda com o Sikêra Júnior, parabéns! Você é um”.

A admiração é recíproca. Apoiador da família Bolsonaro, Sikêra Júnior conquistou a simpatia pública de Eduardo ainda na pré-campanha eleitoral de 2018, quando questionou ao vivo as pesquisas de intenção de voto. “Para bom entendedor, meia palavra basta”, vibrou Eduardo. Na mesma época, o zero três gravou ainda um vídeo para defender o apresentador, alvo de protestos na porta da TV Arapuan, em João Pessoa, onde trabalhava antes de se transferir para Manaus, depois de se referir a mulheres que não pintam as unhas como “sebosas” e chamar uma rapper paraibana de “mal-amada” e “obesa”.

Sikêra Júnior não conhece Jair Bolsonaro pessoalmente, mas afirmou, orgulhoso, que o presidente já telefonou duas vezes para lhe parabenizar pelo trabalho. O apresentador chegou a chamar o presidente para uma entrevista no final do ano passado, durante uma viagem oficial a Manaus — onde Bolsonaro teve 65,7% dos votos em 2018 —, mas não deu certo. “Acho que estou no caminho certo, não só pelo apoio da família Bolsonaro, mas da família brasileira”, disse.

“‘SOU PRECONCEITUOSO, O BRASIL É PRECONCEITUOSO, LAMENTAVELMENTE. MAS, SE VOCÊ ME RESPEITA, EU VOU TE RESPEITAR DOBRADO’, DISSE O APRESENTADOR, QUE SE ORGULHA DE NUNCA TER LIDO UM LIVRO, SOBRE SUAS SEGUIDAS OFENSAS A HOMOSSEXUAIS”

Desde sua estreia nacional, no fim de janeiro, Sikêra Júnior já debochou de um repórter do canal que estava acima do peso e terminou um programa aos gritos de: “Acabou essa merda” — depois de exibir um vídeo em que o cantor Johnny Hooker se refere a Jesus como travesti. Ele também criticou o cantor Netinho de Paula — “Aquele que bate em mulher” —, sem saber que ele também apresenta um programa na RedeTV!. “Eu só me arrependo depois que falo. Não sabia que o Netinho tinha um programa, eu nem assisto à TV. Ele já se redimiu, pediu desculpas, não precisava daquilo. Às vezes penso que não fui eu que falei, foi uma entidade que entrou em mim. Mas os patrões sabem que não tem maldade.”

Sikêra Júnior não se arrepende, no entanto, de comentários homofóbicos. “Eu sou preconceituoso. O Brasil é preconceituoso, lamentavelmente. Eu não sou diferente. Mas, se você me respeita, eu vou te respeitar dobrado”, argumentou. No início de fevereiro, após o assassinato de três pessoas de uma mesma família chocar São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, o apresentador atacou a filha do casal e sua namorada, que participaram do crime: “Presta atenção, Brasil. Eu vou virar o jogo agora. Imagine se o pai dessa moça, por não aceitar um relacionamento lésbico, matasse essas duas?”, questionou, completando: “A lacração tava com a peste na porta do condomínio”.

Em novembro do ano passado, Sikêra Júnior usou uma narrativa semelhante ao noticiar a suspeita de que um casal de mulheres teria torturado uma criança de 8 anos. “Vamos inverter. Imagine se o pai dessa criança descobre que o menino vinha sendo agredido durante oito meses, torturado, e matasse as duas? Era homofobia”, afirmou no programa, que acabou compartilhado há duas semanas no Twitter de Jair Bolsonaro.

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