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Missão do novo ministro da Saúde é salvar Bolsonaro, não o Brasil

Em vídeo, oncologista e empresário Nelson Teich cita doutrina da “escolha” sobre a quem salvar na hora do aperto. Como ministro, sua escolha está entre salvar o chefe ou o povo

São Paulo – Tão logo foi anunciado o nome do médico Nelson Teich para ministro da Saúde, um vídeo começou a circular pelas redes sociais. Nele o oncologista fala em “fazer escolhas” e de se avaliar em “investir” para definir quem deve ficar vivo. Não é possível identificar a data de publicação do vídeo.

“Você vai ter de definir onde vai investir”, afirma. “Tenho uma pessoa que é mais idosa, tem uma doença crônica, avançada, e ela teve uma complicação. Para ela melhorar, vou ter de gastar praticamente o mesmo dinheiro que vou gastar para investir em um adolescente que está com um problema. O mesmo dinheiro que vou investir é igual. Só que essa pessoa é um adolescente que vai ter a vida inteira pela frente e a outra é uma pessoa idosa que pode estar no final de vida”, relaciona. “Qual vai ser a escolha?”

O vídeo segue com Teich comentando que o dinheiro na saúde é limitado. O teor da fala do novo ministro pode não soar estranho à comunidade médica que leva em conta “escolhas” como essas para tomar decisões. Ou ao meio militar, em que numa situação de conflito não será raro deparar com dilema similar. E na falta de conflito ou situação similar, a doutrina formadora tanto do médico quanto do militar os prepara para esse confronto com a “escolha”.

Visão de mercado

A questão é que Nelson Teich, ainda que tenha perfil “técnico” e de mercado, está assumindo um posto de comando num poder público. Essa novidade em sua vida implica decisões políticas. E sua área, a saúde, exige senso de universalidade. Ou seja, buscar soluções, tranquilidade e confiança para todos – para os adolescentes com uma vida toda pela frente e para seus pais e avós. A isso se propõem o Sistema Único de Saúde e a própria Constituição do Brasil.

Mas não é esse o olhar que se constata no vídeo. E sabe-se lá quem desencadeou a circulação dele. Além disso, como o próprio Nelson Teich afirma, ele ainda não tem “uma avaliação do que é essa doença hoje”. Precisaria ter.

Afinal, contaminou 2,2 milhões de pessoas no mundo e matou 145 mil, em quatro meses. No Brasil, pegou mais de 33 mil pessoas, oficialmente – pois podem ser 300 mil. E matou mais de 2 mil – ou seriam 20 mil, a depender de quantos são os casos não confirmados e notificados? Isso antes de o primeiro caso identificado aqui completar dois meses.

Pelo que circulou de informações nesta quinta-feira (16) de sua posse, é que o ministro, como Mandetta, é supostamente um defensor do isolamento social horizontal. Que significa, na falta de se conhecer o inimigo, antes de se chegar a um momento de ter de escolher a quem salvar – o jovem ou o velho, as vidas humanas ou a economia dos sonhos do sistema financeiro –, é necessário proteger todos. Menos mal.

Sendo o ministro um profissional médico com visão de mercado, e sem experiência em gestão pública e demandas sociais e coletivas, é natural que lhe falte sensibilidade política – no bom sentido – ao assumir um posto tão crucial nos dias de hoje.

Mas Nelson Teich assume não com a missão de dar confiança e tranquilidade ao povo, mas de ser um homem fiel a Bolsonaro. De passar a imagem de que o capitão ainda governa. Por isso, o Brasil só tem a temer. Seja pelos perigos diante do novo coronavírus, esse inimigo desconhecido, seja por todo um futuro que os adolescentes de hoje – e seu pais e avós – podem vir a ter pela frente.

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